Notas remotas sobre coronavírus e o futuro do trabalho.

Dois mil e vinte. Um ano promissor que começou com um tremendo balde de água fria. Em questão de semanas, o Coronavírus causou uma crise mundial que já mudou nossas vidas para sempre. Se você, assim como eu, já cansou do trajeto salacozinhaquarto, saiba que ainda faltam algumas (muitas) semanas para que possamos sair às ruas novamente.

Especialmente no Brasil, essa pandemia sem precedentes tem servido para escancarar algumas de nossas mazelas crônicas: o subdesenvolvimento das regiões periféricas que força movimentos pendulares superlotados, o desamparo financeiro dos trabalhadores nas crises, a debilidade do sistema de saúde, a criatividade dos golpistas, o poder de destruição das Fake News, a polarização irracional… A lista é virtualmente infinita.

Mas deixemos esse tema para um próximo texto. O objetivo aqui é batermos um papo sobre as mudanças na microdinâmica do trabalho e como estamos fazendo na nossa empresa para darmos prosseguimento aos projetos, ainda que remotamente.

Durante os próximos meses, até que haja estabilização do contágio, modelos de colaboração e trabalho remoto terão a oportunidade de mostrar o seu valor. Para quem pode exercer suas atividades profissionais à distância, o chamado home office tornou-se uma excelente saída.

Interface do Asana, plataforma que utilizamos para gerenciamento de tarefas.

No entanto, não é preciso muito tempo para descobrir o quão fácil é perder o foco nesse formato. Youtube, Facebook, Twitter, Instagram, G1. Você escolhe. Por sorte, bem antes da atual pandemia, já conseguimos estabelecer rotinas bem definidas para manter a disciplina na Marte. Todos os dias começam com uma reunião matinal para definir missões. Para isso, utilizamos uma ferramenta totalmente online chamada Asana que permite uma visão 360º das tarefas, projetos, responsáveis e prazos.

Obviamente, esse é não é um modelo de trabalho trivial e pode ser um grande desafio para empresas mais tradicionais. No entanto, dadas as atuais circunstâncias, tornou-se a única opção. Para que funcione, é necessário que a cultura da empresa forneça subsídios a essa nova demanda. Nesse sentido, deve-se ter cuidado para que “ficar de home office” não se associe à sentimentos de culpa, dívida ou privilégio. Isso é danoso a nível pessoal e corporativo (e muito mais comum do que possamos imaginar).

Meu home office. Agora.

Outra sugestão importante é ter hora para começar e hora para terminar. Se perder o foco é fácil, não parar de trabalhar é mais fácil ainda. No trabalho presencial somos atravessados por rituais que delimitam o território do que entendemos por trabalho: pegar o metrô, almoçar, fazer um lanche e pegar o metrô de volta para casa são rotinas diárias que modulam a percepção de tempo em nossas vidas. Por essa razão, não fosse o Coronavírus, preferia estar escrevendo esse texto em um café.

Um dos fluxos específicos de trabalho que estamos aprendendo a endereçar aqui na Marte são as atividades colaborativas com múltiplos participantes (os famosos workshops, muito comuns no framework de Design Thinking). Sempre enfatizamos a importância política dessas dinâmicas dentro das empresas e por isso o modelo presencial é tão desejável.

Workspace do Miro, plataforma que utilizamos para workshops remotos.

Em outros tempos, colocaríamos participantes e facilitadores em uma mesma sala com uma pitada de Post-its, canetinhas e voilà! A mágica estaria 90% feita. Hoje, entendemos que a aglomeração de pessoas, por menor que seja, está temporariamente fora de cogitação. Passamos então a realizar workshops remotos em todos os nossos projetos através de ferramentas como o Miro. Com ela, é possível construir painéis virtuais colaborativos e se comunicar com os outros participantes por vídeo durante as atividades.

Em paralelo, estamos desenvolvendo novos produtos voltados ao ensino de design à distância e gerenciamento de design sprints. Esperamos que, muito em breve, possamos divulgá-los para auxiliar indivíduos, times e negócios rumo à uma operação minimamente possível nesse momento tão delicado.

E se você ainda está no período de adaptação a esse isolamento voluntário, aproveite esse momento para investir em algum curso ou hobby. Se existe uma coisa que hoje nos une como seres humanos é a vontade de vencer esse vírus para encontrar novamente as pessoas que amamos (e isso inclui, por que não, nossos colegas de equipe). Com sorte e sensibilidade, tiraremos ótimas lições e novas ideias para um futuro do trabalho mais sustentável e menos suscetível.

Raffael Costa

Sócio-fundador da Marte, Raffael é um designer multidisciplinar atuando nos campos físico e digital. Graduado em Design pela Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI/UERJ), também tem passagem pela Hochschule für Gestaltung Offenbach, Alemanha. Em sua carreira, já desenvolveu projetos em parceria de empresas como Hyundai, BASF, Evonik, Johnson & Johnson, L'Oréal e Ambev. É apaixonado por fotografia e está sempre com uma câmera velha na mão.

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