Não, nem tudo vai virar home office.

Difícil precisar há quanto tempo estamos em casa. Na verdade, nem é possível determinar esse tempo de maneira uniforme, afinal, cada um teve sua própria pandemia, correto?

Aliás, essa me parece a melhor maneira de iniciar esse texto, desmistificando a ideia de que a pandemia foi igual para todos. Nossos contextos são diferentes, principalmente se usarmos o território brasileiro como recorte. Os problemas, de fato, se iniciaram das mesmas questões, mas a maneira como eles se desenvolveram e foram encarados dependeu da realidade de cada um.

Sendo assim, atravessamos as fases da pandemia também em momentos diferentes e, infelizmente, sujeito a sortes diferentes. Aliás, ainda estamos atravessando, nada disso acabou. Hoje, no entanto, o tempo já padroniza um pouco mais nossos aprendizados pois supostamente — e com grandes ressalvas à próxima afirmação — ganhamos experiência com tudo o que já aconteceu.

Talvez agora, com tempo, experiência e mais calmos, possamos enfim discutir com mais profundidade os novos paradigmas do trabalho, trazendo os temas do trabalho remoto e home office para a pauta.

Só agora? Pois é, na minha visão, só agora. Sintam-se livres para discordar, mas vou discorrer um pouco do porquê penso assim.

Penso que o ser humano é um bicho ansioso. Para o bem e para o mal. Vamos de um extremo ao outro em instantes, sustentados por pouquíssimos dados e argumentos.

Em menos de um mês de isolamento — se você iniciou comigo, na virada de fevereiro para março — o discurso que invadia o meio corporativo, do qual eu faço parte, era de que o home office tinha chegado para ficar. Por vezes, o discurso se inflamava e garantia que o modelo tradicional de trabalho havia falido e, quem pudesse ter sua função trazida para o home office, permaneceria assim pós pandemia.

Até aquele momento, quanto tempo tínhamos de experiência? 15 dias, 1 mês talvez. Baseávamos essa percepção apenas na constatação de que um computador com acesso a internet e alguns programas de videoconferência bastavam para manter as pessoas conectadas.

Lembro novamente que falo apenas do meio profissional do qual faço parte. Demais serviços sofriam e sofrem com as mudanças e evitarei entrar nessa esfera pois cabe um texto inteiro para tal.

O meu home office em geral é assim.

Ansiosos que somos, passamos de um oposto ao outro: passamos a sofrer com o excesso de horas em videoconferências; perdemos a referência de começo e fim de expediente; improvisamos espaços de trabalhos desconfortáveis ou barulhentos e, claro, sentimos os efeitos do confinamento pandêmico.

De repente, o home office já não era mais tão belo.

Já era possível, a essa altura, ver o discurso de saudade dos antigos hábitos.

Mas o isolamento seguiu e, ainda de maneira ampla, vem seguindo. Opiniões oscilaram e continuam oscilando.

É possível que ainda venham novas ondas de tendências pouco embasadas, mas podemos agora avaliar melhor.

Porque agora é possível tirar conclusões e antes não?

Como já disse, o tempo ajudou a padronizar as conclusões. Quem tinha um bom espaço para trabalhar em casa já o achou desconfortável em ao menos algum momento. Por outro lado, aqueles que improvisavam um escritório no quarto já adaptaram o ambiente o suficiente para seguir assim. Quem tinha saudade dos filhos durante o dia, já se estressou com o barulho que um “recreio virtual” pode trazer, mas essa intensa convivência também foi vital para reavaliar hábitos e unir famílias.

Agora, completando mais de 5 meses de isolamento, posso me arriscar a dizer que: cada um de nós que esteve em regime de home office já passou por, pelo menos, uma experiência positiva e outra negativa. E aí, o que podemos concluir?

O ser humano, de tão ansioso que é, busca sempre um certo e um errado, um sim e um não. Porém, poucas das respostas que ele busca são passíveis desse binarismo.

Justamente por isso, a pergunta que mais tenho escutado sobre o futuro do trabalho é a seguinte: vai ser remoto ou não?

Acontece que, dessa maneira, o questionamento é superficial. Primeiro, porque não precisa ser apenas um ou outro. Segundo, porque ainda precisamos desmistificar certos termos, os quais para muitos são vistos como sinônimos: o trabalho remoto e o home office.

Sim, há diferença e esta é até bem literal. Trabalhar remotamente se refere a não estar presencialmente na empresa ou instituição da qual faz parte. Podem ser utilizados espaços como coworkings, cafés, hotéis entre outros. Home office, por sua vez, se refere a trabalhar remotamente de casa.

Vale uma pequena ressalva neste ponto: nem todos as definições que encontrei estão em consenso com essa visão. Já pude consultar alguns textos que englobam todos os tipos de trabalho remoto no termo home office e usam a expressão work from home para definir o trabalho realizado exclusivamente em casa. Essas variações são naturais sempre que absorvemos terminologias do inglês.

Para efeitos práticos, vou utilizar, neste texto, o termo home office para definir o trabalho realizado de casa. Para justificar esse uso, me apoio numa frase que já ouvi algumas vezes:

“Hoje eu ia ficar de home office mas acabei indo trabalhar nesse café aqui do lado pra me concentrar mais”

Ou seja, ir ao café não foi visto como home office, apenas como trabalho remoto.

Diferenciando os diferentes modelos de trabalho e voltando a questão de como será o futuro sempre costumo responder: uma bagunça, mas uma bagunça boa!

Digo bagunça porque acredito que iremos misturar de um tudo. Além dos regimes presenciais e remotos, também podemos reavaliar a carga horária, repenser modelos com mais flexibilidade, etc.

A pandemia serviu para deixar muito claro o que não faz sentido.

Não faz sentido cultivarmos um horário de rush no trânsito visto que já entendemos que nem sempre precisamos estar todos presentes num mesmo lugar. Não faz sentido perdermos horas por dia de deslocamento se sabemos que podemos trabalhar desde que tenhamos um computador com internet por perto.

Talvez sequer faça sentido que a grande maioria das atividades se inicie e termine no mesmo horário: o famoso horário comercial.

Por outro lado, para alguns tipos de atividade sabemos funcionamos melhor quando juntos presencialmente: são os casos de algumas reuniões, workshops e outros ofícios que dependem de uma comunicação mais fluida do que por telas de computador. Sabemos também, que nossa casa nem sempre nos oferece um ambiente confortável para nossas tarefas.

Misturar modelos, portanto, pode ser o melhor dos caminhos. É complexo e exigirá tempo de aperfeiçoamento, mas pode equilibrar vantagens numa proporção muito maior do que o binarismo permite.

A vista que ganhei durante meu dia a dia: o Jardim da República. Antes, só via de noite.

Vamo imaginar o seguinte cenário: imagine que você more a uma hora e meia do trabalho, de porta a porta. Numa metrópole brasileira, esse cenário nem é dos piores. Mas para tornar a situação ainda melhor, você só precisa estar presente no escritório durante 2 dias da semana. Nestes, você aproveita para executar funções que utilizem da melhor maneira possível os recursos da empresa, tanto da infraestrutura quanto na troca com seus colegas.

Em casa, nos demais dias, você percebe que precisará fazer uma série de ligações para outra cidade e o ambiente não é confortável. Você sai de casa e ruma a um coworking a apenas 20 minutos de distância, lugar onde a empresa te oferece uma série de diárias pré pagas e é possível realizar melhor suas atividades. Melhor até que no escritório.

Viu? Tenho consciência que esse é um exercício ainda superficial, mas é possível entendermos que obter o melhor de cada modelo é uma questão de ajuste. Esses por sua vez, precisam ser feitos por todos os envolvidos.

Reparem que até mesmo o coworking foi possível de incluir nesse novo modelo. Fiz questão de fazê-lo pois, hoje, a ansiedade humana por vezes sugere que o home office acabará com eles. Bobagem. A maior aglomeração de pessoas que declaram que trabalham melhor fora de casa está em coworkings. O desafio deles é outro: garantir a segurança higiênica com novos fluxos e repensar modelos de assinatura.

É hora de segurarmos a ansiedade, analisarmos nossos aprendizados e começarmos a gerar dúvidas. Sim, fomos tão rápido às conclusões que nos esquecemos de formatar perguntas, hipóteses e questionamentos:

  • Qual será o impacto no mercado imobiliário? Será que voltaremos a procurar imóveis com o cômodo escritório como um dos requisitos?
  • Será que os transportes coletivos vão mudar? Os bilhetes de ônibus e metrôs vão se transformar em algo novo?
  • Será que continuaremos tendo que ir ao banco no horário do almoço do expediente do trabalho? — essa é mais um desabafo, nunca consegui aceitar essa situação num mundo tão digitalizado.

Para um designer, as dúvidas são os elementos mais importantes do começo de um trabalho. Acredito que o mesmo valha para projetar os novos paradigmas.

Mas o ser humano é um bicho ansioso…

Pedro Junqueira

Designer, facilitador e aficionado por Inovação e Tecnologia, Pedro é dedicado ao aprimoramento de metodologias e processos em solo marciano. Graduado em Design pela ESDI/UERJ, com passagem pela Royal Academy of Arts-Holanda, e Master em Design de Espaços pelo IED-Rio, trabalha há anos com Design de Serviços e Design Thinking e já teve oportunidade de desenvolver projetos para grandes empresas como Coca-Cola, SulAmérica, Rede D'Or, BrasilCap entre outras.

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