A restrição como força motriz para a inovação

É inegável que estamos vivendo um período de muitas restrições. Junto com a quarentena, chegaram diversas privações e adaptações no nosso dia-a-dia. Se antes alguns frequentavam academias, agora se contentam com exercícios funcionais no meio da sala. Tinham aqueles que aguardavam a chegada do fim de semana para sair e dançar por festas em todos os cantos da cidade, e agora estão se adaptando à festas virtuais com pouquíssima — ou até nenhuma — interação pessoal.

A impressão que eu tive é que o meu mundo se limitou à poucas possibilidades. Se antes, em uma semana, eu poderia me ver em dois estados diferentes, realizando reuniões por vários bairros e me deparando com diversas oportunidades para estar com amigos; agora o meu percurso diário se limita à dois ou três cômodos dentro da minha própria casa. Assim como a minha, a rotina de todo mundo se limitou bastante. As opções que pareciam infindáveis de entretenimento e socialização se reduziram às opções disponíveis dentro da própria casa.

Junto com todas essas restrições, surgiu algo que quem trabalha com inovação já poderia prever: uma onda de inovação e processos criativos. Depois de conduzir diversos processos de brainstorming, cocriação e ideação, cada vez fico mais convicto de que poucas técnicas são tão eficazes no estímulo à criatividade quanto a restrição.

Mas como isso se aplica na prática?

Se eu te pedir, por exemplo, para pensar em uma maneira criativa de surpreender sua mãe no aniversário dela, o que você pensaria? Automaticamente você vai começar a resgatar diferentes surpresas que você já viu, vai refletir coisas que ela gosta, talvez procure algumas opções na internet e, com boa vontade, vai conversar com alguns amigos. Querendo ou não, esse desafio muito abrangente não estimula um processo criativo tão aprofundado.

Agora, nesse mesmo exemplo, vamos supor que o desafio fosse o seguinte: realizar uma festa de aniversário surpresa para sua mãe, 100% remota e respeitando a tradição de todos brindarem um copo de cerveja à meia noite. Bem mais difícil, né? Com tanta restrição, nosso cérebro pode travar momentaneamente. E muitas vezes disparamos o tradicional ‘mas, isso é impossível’. Porém, com algum exercício de persistência, ele começa a buscar maneiras pouco convencionais de achar uma solução. Como não é algo que já aconteceu previamente, você vai precisar recorrer à influências e referências alternativas e buscar inspirações em opções não tão óbvias. E, é nesse momento, no qual somos completamente afastados da nossa zona de conforto, que nos vemos obrigados a realmente pensar diferente.

Repare que isso tem se manifestado muito durante a quarentena. Nesses quase 120 dias em casa, eu me deparei com festas de casamento online, jogos de tabuleiro virtuais, shows à distância e muitas outras coisas inimagináveis. Esses dias eu esbarrei com um rodízio de comida japonesa delivery (!). Em outro lugar, vi um bar que a cada 30 minutos entregava cervejas geladas e salgadinhos na sua casa, recriando a experiência do boteco mesmo durante o período de isolamento. Com restrições impostas para a reabertura do comércio, eu já me deparei com restaurantes com QR codes no lugar de cardápios físicos e rodízios de carnes sem espetos. Diferente, né?

A restrição tem esse poder. Por mais inquietante e desagradável que seja, ela te obriga a buscar meios alternativos para resolver problemas. Nos processos de ideação que conduzimos nas empresas, aplicamos isso cruzando desafios de negócios, personas do cliente, dados de mercado, limitações tecnológicas e muitos outros provocadores para restringir o pensamento dos participantes e, dessa forma, guiar um processo realmente eficaz de inovação. Quando olhamos com atenção, o grande diferencial das empresas mais inovadoras está na capacidade que elas têm de constantemente se provocarem, se restringirem e se obrigarem a sair da zona de conforto. Elas operam em um ciclo constante de auto análise e problematização em busca de restrições e oportunidades de se reinventarem.

Provas diárias de criatividade

Devo admitir que eu estou muito ansioso com o fim do isolamento. E tão ansioso quanto para todas as inovações que surgirão. Quantos mitos já foram desconstruídos em tão pouco tempo durante a quarentena? Quantas certezas que tínhamos caíram por terra? Será que alguma empresa vai querer voltar com a operação exatamente igual?

Esse é poder que a restrição pode ter. Até aqueles eles que nunca se consideraram criativos, diariamente estão provando a si mesmos o contrário. Toda aula de yoga por instagram, todo curso de violão online, todo aniversário remoto, toda videoconferência com seus avós representam pequenas e constantes inovações no nosso dia-a-dia.

Todo mundo pode ser criativo. Acredito piamente nisso. Com o incentivo e as condições ‘corretas’, nosso cérebro é capaz de fazer conexões inimagináveis. E pra ter certeza disso, basta observar seus amigos e familiares durante a quarentena.

O período é de restrição física, mas também de libertação criativa.

Aproveitemos!

André Albuquerque

Apaixonado por estratégia e criação de novos produtos, André está sempre em busca de aprendizado para refinar e aperfeiçoar o modelo de negócios da Marte. Graduado em Publicidade pela PUC-RJ e pós graduado em Marketing pela FGV-RJ, já atuou como Líder de Projetos de inovação na SulAmérica e Especialista em Design de Serviços na Oi. Somando suas experiências, teve oportunidade de ajudar empresas como Coca-Cola, Rede D'Or, Carrefour, Stone e muitas outras.

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