Afinal, o que é prototipar?

Eu estava prestes a completar 13 anos de idade e tinha como grande sonho ganhar uma guitarra. Desde pequeno, sempre fui apaixonado por música e, pouco a pouco, estava descobrindo minha musicalidade. Por isso, quando meus pais me perguntaram o que eu desejaria ganhar de aniversário, não titubeei: “quero uma guitarra!”.

Logo depois de ter feito o pedido — bem mais caro e barulhento do que meus pais esperavam -, eles me pediram um tempo para pensar a respeito. Lembro que fizeram cálculos, botaram tudo na ponta do lápis e concluíram, afinal, que eu não estava pronto para tal presente por um motivo bem simples: como muitas crianças, eu não tinha muito cuidado com as minhas coisas. Dessa forma, dar um presente tão caro e delicado para mim era, de fato, um tremendo risco.

Alguns dias se passaram e, quando cheguei no meu quarto, vi uma coisa bem diferente. Era uma vitrola, que minha mãe havia ganho quando tinha minha idade. Junto com o presente tinham algumas instruções de uso, como: “antes de ouvir, sempre limpe os discos com o produto X”, “nunca deixe o vinil na bandeja da vitrola enquanto não estiver usando” etc. Aquele não era o presente que eu buscava, mas reconheci sua importância e o tratei com o maior cuidado e carinho do mundo.

Tempos depois, em um dia qualquer, eis minha surpresa. Meus pais haviam me comprado a guitarra que tanto queria. Na hora eu não entendi o que eu tinha feito para merecer o presente, mas hoje a resposta é clara: eu havia, sem perceber, respondido a maior dúvida que eles tinham sobre me dar ou não a guitarra. Eu mostrei a eles (e a mim mesmo) que eu era capaz de cuidar com muito carinho das minhas coisas.

Por que eu contei tudo isso? É simples, essa é uma história sobre prototipação. Meus pais tinham uma dúvida sobre o risco que iriam assumir ao me dar o presente e, ao invés de comprá-lo, decidiram validar minha capacidade de cuidado com meus pertences, prototipando a minha experiência de uso. Quando, enfim, provei que eu era capaz de cuidar minhas coisas, o risco da compra diminuiu e eles se sentiram confortáveis para arcar com tamanha despesa.

Existe uma percepção um pouco falha em algumas empresas sobre o que é prototipação e qual é a sua importância. Muitos acreditam que para testar é preciso despender muito esforço e tempo, mas isso não é necessariamente verdade.

O ato da prototipação se consiste em validar ideias e hipóteses antes da construção final do produto ou serviço. Morfologicamente, do grego, prótos (= primeiro) e typos (=tipo), significam algo como o ‘primeiro tipo’ ou, interpretando de maneira mais prática, a ‘primeira versão’ de algo.

E por que isso é tão importante? Ao prototipar se diminui os riscos atrelados à qualquer desenvolvimento. Ninguém quer gastar tempo, dinheiro e esforço na criação de um produto para descobrir, logo depois de seu lançamento, que ele não agrega nenhum valor ao cliente final. Ou, até mesmo, perceber que apesar de todo o esforço dedicado ao desenvolvimento de sua usabilidade e comunicação, os usuários não conseguem usá-lo da maneira projetada.

Prototipar de forma correta diminui riscos. E, no fim das contas, é isso que qualquer empresa está buscando. Principalmente nessa nova realidade em que a inovação faz parte do dia-a-dia de muitas corporações, qualquer possibilidade de diminuir riscos é fundamental e muito bem vinda.

A pergunta que você pode estar se perguntando é: “está clara a importância dessa etapa, mas por que será que muitas empresas não adotam tal prática?”. É aí que está o xis da questão. Como dito acima, existe uma falsa percepção de que para prototipar é preciso investir muito tempo e dinheiro no processo.

Para muitos, prototipar é construir uma versão beta do seu produto e apresentá-lo ao mercado. Apesar desta também ser uma maneira de prototipar, ela não é a única alternativa e nem, muito menos, a mais adequada.

Prototipar é rabiscar, desenhar, rasgar e dobrar. É ser criativo e entender quais hipóteses são importantes de serem validadas antes da construção de um produto ou serviço.

Note que na história da minha guitarra, o ato de prototipar não consistiu em me dar um violão ou cavaquinho, produtos similares e de menor custo. Afinal, não era isso que os meus pais queriam validar. O que eles analisaram foi a minha capacidade de cuidar com carinho de um produto importante e caro. E, através da vitrola, eles obtiveram essa resposta.

Essa é a maior falha que encontramos em muitas empresas. “Já que preciso prototipar um aplicativo, vou criar uma versão menor com quase as mesmas funcionalidades para testar sua adesão”. Essa prática é muito comum, mas repare que ela não ataca nenhuma hipótese sobre o produto e gera um altíssimo custo adicional de programação e desenvolvimento. Optando por esse caminho, é provável que o aplicativo demore mais para ficar pronto e, consequentemente, seja mais custoso.

Numa situação parecida com a descrita acima, eu fiz algo diferente. Enquanto consultor, eu e a minha equipe havíamos criado um pacote de funcionalidades para um novo aplicativo. Entre elas, existia uma que não estávamos confiantes se seria realmente útil aos futuros usuários. Fizemos o seguinte, então: enviamos um arquivo em PDF contando mais detalhes sobre a funcionalidade em questão e algumas imagens para ilustrá-la. Esse material foi disparado para um seleto grupo de clientes e, ao final, solicitamos o preenchimento de um curto formulário para coletar suas percepções.

O esforço de preparação para esta validação durou dois dias e ela ficou por uma semana na mão dos usuários. O resultado que obtivemos foi o de que mais de 90% das pessoas tinham um real interesse no que estávamos propondo. Tiro e queda, em menos de 10 dias, conseguimos ter um pouco mais de segurança sobre um conceito crítico para o nosso projeto.

Para esse mesmo aplicativo, outra funcionalidade chave também foi alvo de testes, mas com outro formato de prototipação. Criamos um site simples com apenas a funcionalidade que queríamos testar. Em seguida, selecionamos alguns clientes da nossa base e, via email, explicamos em poucas palavras a nova ferramenta. Os resultados deste teste também foram expressivos e, mais uma vez, com um pequeno esforço do nosso time, conseguimos uma amostragem consistente para validar a ideia.

Um último exemplo sobre o tema aconteceu em um trabalho em que estávamos com a missão de reduzir o número de ligações ao Call Center de uma grande empresa. O objetivo do projeto era fazer com que mais clientes conseguissem resolver seus problemas e sanar dúvidas sem precisar entrar em contato com a central. Entre as ideias e proposições geradas pelo time para alcançar o resultado desejado, surgiram ações como: ‘revisões ao robô da URA’, ‘uma maior divulgação dos auto serviços nos sites e aplicativos’ e, por fim, uma ‘revisão no roteiro usado pelos atendentes no Call Center’.

Entre os pontos acima, resolvemos testar a última ideia, a revisão no roteiro dos atendentes. Nossa proposta foi simples, pegamos o horário de vale da central (com menor número de ligações) e, por uma semana, no horário selecionado, sentamos ao lado dos atendentes e pedimos que eles executassem o novo roteiro. Ao final dessa etapa, coletamos a percepção deles e cruzamos os números do novo roteiro com o antigo.

No caso acima, especificamente, percebemos que o novo roteiro não melhorou o atendimento e, além disso, gerou maior desconforto aos operadores. Por conta disso, o script foi refinado e testado novamente, desta vez com resultados mais expressivos e alinhados à estratégia definida pelo time.

Em resumo, uma prototipação adequada precisa ser criativa e prática. A palavra de ordem precisa ser simplicidade. Essa etapa não precisa ser custosa ou demorada, pelo contrário, o intuito é fazer com que o risco de qualquer mudança seja minimizado com o menor investimento possível de recursos, tempo e dinheiro.

Voltando ao meu presente da infância, fica claro o sucesso da prototipação — mesmo que meus pais nunca tivessem escutado essa palavra antes. Décadas depois, continuei comprando instrumentos e minha paixão pela música nunca parou de crescer. Zero custo adicional, conceito validado, risco minimizado e presente muito bem aceito.

André Albuquerque

Apaixonado por estratégia e criação de novos produtos, André está sempre em busca de aprendizado para refinar e aperfeiçoar o modelo de negócios da Marte. Graduado em Publicidade pela PUC-RJ e pós graduado em Marketing pela FGV-RJ, já atuou como Líder de Projetos de inovação na SulAmérica e Especialista em Design de Serviços na Oi. Somando suas experiências, teve oportunidade de ajudar empresas como Coca-Cola, Rede D'Or, Carrefour, Stone e muitas outras.

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